PARA VIVER O CAPITULO

Nesta rubrica vamos propor à vossa atenção e reflexão algumas colocações do Padre Pier Luigi Nava durante o 32° Capítulo Geral. Entre as várias que ele fez durante as Celebrações Eucarísticas e nas assembléias capitulares, escolheremos aquelas que podem nos ajudar a aprofundar os temas formativos das fichas.
Neste número transcrevemos a reflexão que Padre Nava propôs às capitulares dia 14 de agosto; o texto de referência é 2 Tm 1,1-6. Consideramos oportuno apresentá-la primeiro, porque nos ajudará a entrar no sentido autentico da “memória de uma tradição” e então a colher a importância de uma Regra de Vida para um Instituto em uma visão mais ampla.

«REAVIVAR O DOM DE DEUS»

2 Tm 1,1-6:
«Paulo, apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus, a Timóteo, meu filho amado: graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor.
Dou graças a Deus, a quem sirvo em continuidade com os meus antepassados, com consciencia pura, quando sem cessar, noite e dia, me recordo de ti em minhas orações. Lembrado de tuas lagrimas, desejo ardentemente rever-te, para transbordar de alegria. Evoco a lembrança da fé sem hipocrisia que há em ti, a mesma que habitou primeiramente em tua avó Lóide, em tua mãe Eunice e que, estou convencido, reside também em ti. Por este motivo, eu te exorto a reavivar o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos».

Porque Timóteo? Antes de tudo este início da carta a Timóteo é do gênero epistolário das cartas de amizade, que terá um grande sucesso na espiritualidade ocidental: as cartas de amizade trocadas entre figuras de primeira ordem da Vida intelectual e eclesial. Todos tomamos, por exemplo: São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca Fremiot de Chantal, e tantos outros casos.
Então a perspectiva de Paulo é uma carta de amizade. E por que escolhemos esta breve perícope? Não somente porque é o início da experiência de fé, que nasce de uma amizade, uma amizade que depois se torna discipulado - a graça da eleição - mas porque existe uma linguagem de grande rigor e, sobretudo aqui o autor da II Timóteo coloca em ser um exercício de memória, um afetuoso exercício da memória.
Iniciamos do versículo: ‘Dou graças a Deus, a quem sirvo em continuidade com os meus antepassados’. Bonita esta consciência, que é uma palavra muito mais ampla no texto original, e o termo pura não vos engane, nem se deixem seduzir por certos moralismos. Este Deus que sirvo: atenção, se trata do serviço da liturgia, o serviço do altar: é o serviço do ministério apostólico. Porque utiliza consciência pura? Porque esta consciência torna transparente a motivação do serviço; a syneidesis é a capacidade, na nossa existência, de não fazer confusão, e que o nosso serviço é transparente; é uma visibilidade da motivação dentro da nossa Vida: os outros a vêem, não lêem outro. Então esta consciência é muito mais, é a capacidade na nossa Vida de conseguir transmitir a nossa convicção, de conseguir saber dar ao outro aquilo que te está mais no coração da tua existência. Eis porque é no discurso discipulado-amizade. Esta é a consciência pura, transparente, límpida.
Como os meus antepassados: os marqueses são os vossos progonon, os primeiros pais. É o léxico da tradição, da genealogia. É bonito isto porque o autor, Paulo, quando está falando do seu serviço e do serviço de Deus, diz que esta motivação não chega só de mim, está dentro da historia da minha família. Este valor chegou até mim através dos meus familiares, ele chega a dizer progonon aqueles que estão no inicio, na origem.
Eis porque quando digo a palavra inspiração, que foi utilizada mais de uma vez no Capítulo, me refiro ao voltar à motivação fundante, aqueles primeiros pais que, motivando a sua Vida, dão ainda razão das escolhas da vossa. Eis porque Paulo faz esta operação inversa que é uma operação de reconhecimento, um pouco o “background” (Pe. Nava usou esta palavra técnica em inglês que significa acontecimento que explica fatos posteriores) deste texto. Então entendam a importância desta consciência transparente, límpida, que diz: aquilo que sou na minha existência no serviço de Deus me vem também de quem viveu antes de mim, eu acolhi e recebi aquilo que os meus, a minha família, aqueles que existiram antes de mim viveram e acreditaram. Eis porque quando falo de traditio, tem toda a carga daquilo que está dentro da origem, mas uma origem que chega a mim e continua a motivar-me.
‘Sem cessar, noite e dia, me recordo de ti em minhas orações’: eis aqui a dilectio, Paulo chama Timóteo de filho amado, obviamente existe uma amizade feita de oração. A expressão noite e dia não a leiam em sentido temporal, é em relação ao exercício da memória, mneian. Esta é uma memória que vai além do tempo, porque é a memória afetiva. Portanto, dizendo noite e dia, significa que é uma memória que não tem tempo, porque é entregue ao afeto da memória que então, constantemente faz recordar, pensa ao outro, ao bem do outro e o faz com a oração.
‘Lembrado de tuas lagrimas, desejo ardentemente - aqui obviamente a tradução se é alargada ao excesso - rever-te, para transbordar de alegria’: a palavra nostalgia não existe em grego, foi inventada pelos franceses em 1.700, portanto é uma tradução um pouco alegre. Porque Lembrado de tuas lagrimas? As lágrimas, também na simbologia antiga, estão sempre ligadas a eventos particularíssimos da existência mas, obviamente entendemos o discurso que vem depois, provavelmente, porque Timóteo terá sido levado a assumir este ministério, esta tarefa. Então é a consciência do próprio limite, do ser inadequado, portanto estas lágrimas, como consciência do amigo, que sabe, em amizade , que lhe pediu muito. Aqui Paulo toma a atitude de que ao discípulo amado, predileto, pediu muito. Usa esta expressão porque a amizade sabe que pode pedir muito. E portanto, se mesmo não literalmente, esta nostalgia significa que Paulo tinha um desejo literalmente incontrolável: a amizade é o desejo incontrolável de ver o outro, para se encher de alegria, é o desejo incontrolável de partilhar com ele a alegria.
De novo aqui muda agora o campo semântico da memória. Até agora é uma memória presente: Timóteo está na Vida de Paulo. Porém, no discurso dos primeiros pais, Paulo antes fala dos seus, agora fala daqueles de Timóteo: vejam o paralelismo que existe na estrutura.
‘Evoco a lembrança’: aqui é o verbo do relembrar, o verbo do re-memorar.
Faz uma operação atrás, diz como a experiência de fé de Timóteo é arraigada na sua família. As convicções que movem o meu serviço, a fé que dá razão ao teu serviço. Uma fé, mais sincera, sem hipocrisia, que não necessita de ir procurar justificações. Uma fé que se revela naquele exercício de relembrança que está ligado a um processo de transmissão, - eis porque fala da mãe e da avó, os antepassados – uma fé sólida, uma fé que ancorou as próprias motivações. E que, estou convencido, reside também em ti: é a convicção do apostolo nos confrontos do discípulo. A certeza que a fé é o que move o seu ministério.
Porque insisto muito nesta pistis - fé? É o gancho, é a leitura correta deste versículo. Por este motivo - a conexão sintática é precisa no original - por este motivo, de uma fé que não necessita de muitas falações. Por este motivo, eu te exorto - é um outro recordar, é o terceiro nível da memória - a reavivar o dom de Deus que há em ti. Qual memória? Este é um grego que todas aprenderam: ‘anamnesis’. E’ uma memória que atravessa a tua Vida, é uma memória que motiva a tua existência, é uma memória que está dentro da biografia. Então Paulo está fazendo não uma operação do tipo: “te lembro de entregar a tarefa”. Não.
Lembro-te que na tua existência existe uma memória profunda, a memória do dom de Deus, charisma tou theou: o dom de Deus, a fé. Este é o charisma por excelência: a fé.
O dom de Deus que está em ti, que está em ti, pela imposição das minhas mãos. Aqui é obvio que o autor joga sobre a dimensão de fé, sobre a dimensão do serviço, mas iniciou o trecho aproximando ambos: como sirvo Deus com consciência transparente, límpida, assim você serve Deus na tua Vida como memória desta fé, como memória do dom de Deus. Aqui é bonito porque significa que o serviço, o ministério é memória do dom de Deus aos outros, dom que não é teu, está em você pela imposição das mãos. Eis, a mediação do amigo e do apóstolo no ministério eclesial.
O famoso reavivar é um verbo alusivo: é o verbo do soprar sobre o fogo quando temos as cinzas, é típico para quem tem lareira. Soprar sobre o fogo indica reavivar, reativar. É a metáfora do Espírito. É o Espírito que em ti reaviva a memória do dom: este é o sentido profundo. Neste reavivar está a dimensão da luz, do fogo, do calor, dizemos, metáfora do Espírito. Então é muito mais que reavivar. Mas tem uma fineza que é difícil de entender. Atenção, por este motivo te exorto a reavivar o dom de Deus que há em ti: não é que ele (Timóteo) que reaviva, é o Espírito que, graças à memória, reaviva nele o dom de Deus, pela imposição da mãos, para o serviço da fé, o ministério apostólico. Então entendam qual é o motivo pelo qual a palavra carisma tem uma dimensão radical e fundante, que depois na Primeira Carta aos Corintios 13 assumirá aquela que é a fenomenologia do Espírito, os dons do Espírito, mas que tem a sua razão no charisma, o dom de Deus na nossa Vida.

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PARA VIVER O CAPITULO

Neste número dos Atos, que traz como temática principal o seguimento de Jesus, propomos à vossa reflexão a homilia que o Padre Pierluigi Nava ofereceu às Capitulares no dia 19 de agosto de 2008.
Trata-se de um comentário sobre o seguimento, na perspectiva do Evangelista Mateus.

O SEGUIMENTO

“Então Jesus disse aos seus discípulos: “Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no Reino dos Céus. E vos digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Ao ouvirem isso os discípulos ficaram muito espantados e disseram: “Quem poderá então salvar- se?” Jesus fitando – os disse: “Ao homem isso é impossível, mas a Deus tudo é possível”.
Pedro tomando então a Palavra, disse: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos. O que é que vamos receber?” Disse- lhe Jesus: “Em verdade vos digo que, quando as coisas forem renovadas, e o Filho do Homem se assentar no seu trono de glória, também vós, que me seguistes, vos sentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por causa do meu nome, receberá muito mais e herdará a vida eterna.
Muitos dos primeiros serão os últimos, e muito dos últimos, primeiros.” (Mt. 19,23-30 – ler o texto)

Dois simples destaques:
“Ao homem isto é impossível – tema da salvação- mas para Deus tudo é possível”. Atenção: o contexto é o seguimento.
A insistência de Mateus é decisiva. O chamado é uma possibilidade de Deus, o chamado é uma possibilidade que dás a Deus. Nisto reencontres o teu lugar de salvação.
Portanto vocês entendem que aqui temos uma perspectiva muito mais ampla do sentido da nossa vocação de crentes, de homens e de mulheres no seguimento do Senhor. Nós revelamos a possibilidade de Deus, que este Deus tem na minha vida.
Porém, é interessante esta aproximação: Deus, na minha vida, revela a Sua possibilidade. Aquilo que conta não são as minhas possibilidades, os meus recursos, as minhas capacidades, mas o saber revelar–manifestar a possibilidade de Deus através da minha vida.
Os outros a vêem. O povo das nossas paróquias percebe logo, existe um sexto sentido que faz advertir aos outros se a nossa vida é esta possibilidade ou se talvez é mascarada pelas nossas desejadas possibilidades.
Segundo destaque: Aqui Mateus explora as palavras referentes ao seguimento, com todas as suas nuanças, mas tem uma que é toda sua. Em resposta a Pedro que obviamente, quase em sentido contábil, pergunta: “mas, afinal, o que ganhamos com este seguimento?”.
“Em verdade vos digo, vós que me seguiram na nova criação”: É difícil traduzir esta palavra, porque, se tivessem colocado palingenesia, a palavra criaria problemas, porém, neste contexto é formidável a relevância. Esta possibilidade, que é confiada à sua vida. É um novo início: o seguimento, o chamado como um novo início da tua vida.
É assim, repetimos isso a séculos, mas talvez perdemos o sentido mais profundo. O ser chamados, chamadas ao seguimento do Senhor é um chamado a um processo, mais corretamente podemos dizer: re–criação.
Nós somos aqueles operadores que, dentro da história, regeneram a história e o cosmo para Deus. Esta palingenesia é uma regeneração. É belíssimo porque significa que nós não estamos somente “dentro de um chamado”, uma lógica do chamado que, não esqueçam, é uma possibilidade que Deus nos dá. Cabe a nós, espertas, aproveita-La.
Neste chamado tem uma responsabilidade ulterior: o chamado está dentro da lógica, é um processo dentro da história, para que esta historia retorne à sua origem, recupere aquela origem, aquele início que é da possibilidade de Deus na criação, no cosmo.
Quanto à lógica quase mercantilista que Pedro apresenta ao Mestre, Jesus lhe diz que aqui a perspectiva esta na palingenesia, neste processo de regeneração da história, da criação enquanto são regeneradas-repensadas as relações familiares, de parentesco. Aqui Jesus não diz só deixaram. É interessante: Jesus inicia com propriedades imóveis e termina com imóveis. É curioso: Casas e campos. Entre casas e campos, está a família, as relações de parentesco.
Mas o termo deixado é muito mais no texto original e se coliga a toda a lógica deste texto.
Em síntese: Diante da questão contábil, Jesus diz: aqui não é uma questão contábil, não é o deixar, mas trata-se de repensar o sentido da própria existência “prescindindo de”, isto quer dizer a palingenesia mais radical e profunda.
Todos deixamos alguma coisa (e talvez deixamos também com prazer, devemos admitir). O problema é que, com o seguimento, se entrou em uma lógica de “prescindindo de”: é aqui que acontece o sentido mais profundo da palingenesia, que é uma categoria mais radical e fundamental, é uma categoria cognitiva. Este deixar, portanto, revela a sua radicalidade: porque, para que, qual é o motivo?
Foi dada a você a possibilidade de Deus, portanto tu revelas aos outro esta possibilidade. O resto é acessório.


ESPECIAL 175º

Das Crônicas: Ano 1884 (2)
A Pagina das crônicas que propomos neste número, trata dos preparativos para as celebrações do primeiro cinqüentenário do Instituto e as define como um “afanar–se tranqüilo e amoroso”. Esta expressão nos reenvia a uma operosidade animada por uma profunda paz e grande amor pela Congregação. São estes valores que nos interrogam sobre o nosso modo de atuar e festejar: um “afanar-se” muitas vezes pouco tranqüilo, porque insidiado pela ânsia, pela frenesia, pelo desejo de sucesso etc.
As nossas irmãs que nos precederam nos indicam o caminho da autentica alegria, da comunhão, do agradecimento à Divina providencia, fonte de paz verdadeira e duradoura.

“Enquanto se aproximava o esperado dia [...] era um afanar–se tranquilo e amoroso a fim de que todos os preparativos ficassem prontos em tempo, e a festa resultasse solene, pomposa e memorável o quanto possível.
A Veneradíssima Madre Geral convidou todas as superioras das casas e estabelecimentos para reunirem-se em Turim para festejar unidas, na casa Mãe, este primeiro querido Cinquentenário.
Todas aceitaram com prazer o convite [...] e no dia 11 de dezembro se teve o prazer de vê–las reunidas, cada uma trazendo em prosa ou em versos os sentimentos das irmãs das próprias Casas e Estabelecimentos, as quais, estando longe com o corpo participavam com o espírito e com o coração à festiva alegria. Estes escritos, como já foi dito acima, foram ordenados e recolhidos em um álbum preparado para esta ocasião.
O dia 12 deu inicio a um solene tríduo para dispor as nossas almas para celebrar com fruto. O Pregador Rev.do Teólogo Giovanni Francesia do Oratório de São Francisco de Sales, tomando argumento das palavras de Jesus Cristo “Eu faço os mudos falarem, os cegos verem, os surdos ouvirem”, nos instruiu sobre a excelência da Vocação Religiosa, e sobre a obrigação que essa nos impõe de edificar o próximo com os nossos santos exemplos e tender continuamente à mais alta Perfeição.
E por três dias Jesus Sacramentado nos deu a sua benção enquanto no jubilo do nosso coração, cheias de reconhecimento à Divina Providencia, nós exultávamos no cântico de Zacarias, felizes também nós de saudar a vinda de Cristo, do qual espírito devia renovar–se no coração das suas Esposas nesta solene festividade”. ( Crônica do Instituto, vol. I, pag. 201-202).

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